Mostrando postagens com marcador Meus Textos. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Meus Textos. Mostrar todas as postagens

quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

|| CONTO: As regras do amor

Não me lembro bem como era seu nome. Mas, se não me falha a memória, chamava-se Clóvis. Não posso descrevê-lo detalhadamente, pois ultimamente minhas lembranças estão escassas e parece que a cada momento me deixam mais a mercê das histórias que outras pessoas contam a meu respeito. Histórias essas que fazem minha mente gritar para mim mesmo que deveria lembrar daquilo, mas velho como sou e a cada dia mais próximo de vestir a dita “roupa de madeira”, fica cada vez mais difícil trazer à mente fatos do meu passado.

Clóvis, entretanto, é um caso à parte. Creio que nunca o esquecerei até que o último instante de meu derradeiro dia chegue. Ele era magro, como eu naquele tempo, cabelos cuidadosamente penteado para o lado, óculos grossos grudados no rosto fino e de um jeito todo contido.

Andávamos sempre juntos, acompanhados ainda de um outro amigo... Como era o nome dele mesmo? Caramba! Vamos dizer que o nome dele era Luís (disseram-me que o presidente do Brasil se chama assim). Éramos como irmãos ou primos, apesar de vez em quando, como parente mais velho, Luís nos desse alguns tapas. Tirando isso, sentia como fôssemos da mesma família.

O mais saidinho, pra não dizer aquele que não tinha vergonha de se engraçar para o lado das meninas, era Luís. Esse era o maior motivo (será que tinha outros? Não me lembro.) para que andássemos com ele. Era cheio de galanteios, o rapazote Luís, e o incrível é que o danado, na maioria das vezes, ganhava a recompensa por suas frases de efeito, um beijinho adocicado das pequenas beldades da vizinhança. O que me faz lembrar de Clóvis é que ele sempre ficava impressionado com isso e passou a pedir a Luís que o ensinasse a ser como ele.

Luís aceitou de pronto e logo passou a dar suas incríveis instruções, mas não sem antes ditar-lhe algumas regras:

"Nunca olhe para as feias; jamais queira as tagarelas; mantenha distância das mal-vestidas; esqueça-se das piolhentas e despreze as mal cheirosas."

"Só isso? Você só tem essas condições?" perguntou Clóvis.

"Apenas isso." Luís disse esboçando seu sorriso branco e perfeito.

Fitei Clóvis e vi seus olhos brilhando com a expectativa de vir a ser tão beijoqueiro quanto Luís. Porém, quero logo lhe adiantar, caro leitor, que meu amigo Clóvis iria se arrepender do pedido que fizera a Luís. Não quero e nem posso me alongar nesse pequeno texto, mas o que ocorreu nos dias que se seguiram foi o seguinte: a cada meninota que Clóvis almejava, Luís lhe dizia algo que lhe tirava as parcas forças.

“Olhe o que lhe falei a respeito das regras! Será que não vê que essa garota tem os dentes tortos? Ela se encaixa nas ditas ‘feias’, por isso está descartada.”

Quando Clóvis lhe apontou outra menina, Luís retorceu os lábios e desdenhou:

“Já conversei com aquela; ela fala pelos cotovelos. Não serve para você.”

O fato era que o tutor de Clóvis não lhe deixava sequer chegar perto de alguma menina. Meu amigo, então, além de tímido começava a ficar traumatizado, pois aquelas regras passaram a fazer parte de sua vida desde então. Isso o acompanhou pelos anos seguintes e o deformou emocionalmente. Já tínhamos adentrado na fase da juventude quando eis que surgiu... (Meu Deus, faça-me lembrar do nome dela! Ah, sim!), Juliana em sua vida.

Aquela garota, se não me falha a memória, era linda e fazia qualquer moleque espinhento – como eu naquele tempo – sentir um friozinho na barriga numa simples troca de olhar. Qualquer um sentir-se-ia um afortunado por apenas andar de mãos dadas com Juliana. Logo descobri que Clóvis nutria, como todos nós, aquela certa empolgação quando o nome de Juliana era mencionado em nossas conversas nada pueris.
“Daria tudo por um beijinho dela”, sonhava um colega nosso.

“Você já notaram aqueles olhos verdes que ela tem? Parecem verdadeiras esmeraldas!”, exclamou outro, de olhos fechados, certamente se imaginado diante da própria.

Após mais comentários repletos de bajulices com relação à Juliana proferidos por outros garotos, notei que meu amigo Clóvis permanecia quieto e, de certa forma, até tenso. Resolvi então dirigir-me a ele:

“E você, Clóvis, o que tem a dizer sobre Juliana?”, indagei.

Clóvis passou a mão rapidamente pelos cabelos, certificando-se de que continuavam firmes para o lado, e fez uma careta antes de comentar:

“Ela não se encaixa no meu perfil; Veste-se muito mal.”

“Mas é claro!” retrucou um jovem junto a ele. “Ela é de família humilde, como todos nós!”

Naquele exato momento lembrei-me de Luís, que não estava mais entre nós. Tinha se mudado para outra cidade com os pais, meses atrás. Mas deixou a tal “regra” fincada nos miolos de seu discípulo. Regras estas que faziam, segundo minha observação, Clóvis travar uma pequena batalha dentro de si, pois, sem dúvida, seu coração estava extremamente atraído por Juliana, mas seu cérebro, programado nos tempos de meninice, repelia a ideia de um dia ficarem juntos.

É, amigo leitor, as batalhas travadas dentro do ser humano sãos as mais ferrenhas e dolorosas que se possa imaginar, que faz o homem se isolar, adoecer sem que esteja infectado por bactéria alguma, temer o incerto, perder-se em embates com o próprio eu... (Será que já ouvi isso em algum lugar?). Meu amigo Clóvis estava imerso numa dessas funestas lutas sentimentais, entre o coração e a mente.

Passamos alguns dias sem nos ver até que um dia ele apareceu em minha casa e agarrou no meu colarinho como alguém desesperado pela solução de um grave problema.

“O que devo fazer, meu amigo? Juliana é a garota perfeita para o meu coração, mas minha mente a rejeita!”
Acalmei-o e sentamos em algumas cadeiras que tínhamos na sala de minha casa.

“Você já se dirigiu a ela? Ao menos trocou algumas palavras com ela?”

“Nunca. Jamais me atrevi a contrariar as regras... até agora.”

Naquele momento bati com força e raiva com a mão na minha coxa direita e falei sobre a pieguice daquelas tais regras. O amor não poderia ser prescrevido por um conjunto de determinações da mente, disse-lhe. Aquele sentimento inigualável muitas vezes é irracional e recai sobre nós como num passe de mágica. Por fim perguntei-lhe:

“Como você pode permitir que algo tão maravilhoso como o amor, que só pode vir do Deus criador, seja podado por essas regras idiotas formuladas por um garoto gabola? Liberte-se disso, meu amigo. Siga seu coração!”

Clóvis ficou sem palavras por um momento. Por fim sorriu, levantou-se, caminhou em minha direção, abraçou-me e saiu correndo para a rua. Aquela foi a última vez que o vi. Meu amigo Clóvis não apareceu mais lá em casa ou em qualquer outro lugar da cidade. O motivo apenas soube um mês depois de nosso último encontro.

Quem me contou foi um outro rapaz, muito próximo a nós. O nome dele? Esquece. O fato é que Clóvis, ao sair de minha casa, chegou correndo na frente da casa da bela Juliana e pediu para falar-lhe. A mãe da garota, apesar de desconfiada, permitiu-a trocar algumas palavras com meu amigo. Ele, todo seguro de si e esquecendo-se das malditas regras, derramou-se em palavras encantadoras a fim de fazê-la entender seus sentimentos em relação a ela. Após terminar seu doce e apaixonado repertório perguntou a ela o que achava. A resposta foi surpreendente:

“Não podemos ficar juntos”, disse ela secamente.

“Por quê? Qual o problema comigo?”

“Você é pobre, como eu. Minha mãe disse que não posso casar com alguém sem recursos. Ela disse que isso deve ser como uma regra para mim, para alcançar a felicidade.”

Aquelas palavras foram como uma flechada mortal no peito de meu amigo. Mais uma vez uma regra entrara em sua vida, fincando-se como um obstáculo para encontrar o amor. Ouvi dizer que Clóvis chorou copiosamente e naquele mesmo dia foi embora da cidade para morar com parentes distantes.

Ao saber dessa história procurei Juliana para ter com ela uma conversa franca. Encontrei-a conversando com algumas amigas numa praça perto da escola em que estudávamos. Pedi para falar-lhe por um momento e ela aceitou. Não lembro quantos anos eu tinha, mas tenho quase certeza que estava a caminho dos 18. Distanciamo-nos das amigas e sentamos num dos bancos espalhados pelo local. Fitei-a nos olhos verdes que mais pareciam o mar e disse sério:

“Soube que o Clóvis lhe procurou para se declarar e você o esnobou.”

Ao ouvir sobre o fato ela baixou a cabeça. Falou em voz baixa.

“Sim, ele me procurou e contei sobre a ‘regra do amor‘ que minha mãe me deu. Mas...”

“Sabe o quanto isso é ridículo, não é?”, interrompi. “O engraçado é que ele também tinha uma regra que o afastava de você. Por achar que você se vestia mal se desvencilhava do verdadeiro sentimento que nutria por sua pessoa.”

Ela ergueu o cenho e juntou as sobrancelhas numa expressão de surpresa.

“Eu me visto mal?”, ela quis saber.

“Ele achava. Mas isso não importa agora. O fato é que ele foi falar comigo e lhe abri os olhos quanto à crueldade que é ser refém de uma regra ditada por outra pessoa que não seja você próprio. Que por mais tola que algo seja, mas sair do seu coração, vale a pena prestar bem atenção nele.”

Ela ficou me encarando por um momento e então uma lágrima escorregou de seus olhos, deixando um rastro em sua face rosada.

“Eu ia falar uma coisa antes e você me interrompeu.”

“É verdade.”

“Eu ia falar que pensei muito no que aconteceu naquela noite com o seu amigo. No que falei para ele. Houve momentos em que chorei lembrando de minhas próprias palavras, pois elas foram cruéis e ofensivas.
Pensando que aquela regra teria ferido e afastado para longe a pessoa que gosto, se fosse ela a vir ter comigo naquele dia. Decidi que não posso pôr meus sentimentos por essa pessoas em jogo por causa de uma regra ambiciosa, só porque ela é pobre como eu. Não posso peder... você.”

Aquelas últimas palavras fizeram o mundo girar por um momento até que me esforcei para que tudo voltasse a ficar no lugar. Pisquei uma infinidade de vezes até que duas coisas saíram de minha boca: uma foi um simples sorriso de satisfação; outra foi uma frase mais ou menos assim:

“Também tenho uma regra do amor.” Senti como se Juliana prendesse a respiração, apreensiva com as palavras que viriam a seguir. Continuei: “Sempre siga o seu coração e seja muito feliz.”

Sorrimos juntos e naquele mesmo dia andamos juntos de mãos dadas pela praça.

Você quer saber o que aconteceu depois disso, amigo leitor? Se Juliana e eu ficamos juntos? Infelizmente não posso responder a essas indagações no estado em que me encontro. Mas algo me chama a atenção a todo o instante na casa onde resido agora. Há uma mulher, já com uma certa idade, que de vez em quando fala comigo e me chama de “querido”. Fica sempre perto de mim e parece também se preocupar comigo. Ela tem olhos verdes intensos e me fazem lembrar de uma certa garota. O nome dela é... Puxa vida! Já me esqueci.

Naasom A. Sousa Outubro/2010

segunda-feira, 11 de abril de 2011

Os tristes palavrões

http://saojoaquimonline.com.br/wp-content/uploads/2009/12/Palavr%C3%A3o-450x333.jpg

Toda vez que ouço alguém chamar um palavrão, por qualquer bobagem que seja, fico consternado. A educação que recebi sempre foi de jamais chamar um palavrão, pois isso era errado e, acima de tudo, feio. De fato, no meu tempo (anos 1970 e 1980) era algo que raramente ouvíamos.

Mas hoje, parece que se tornou corriqueiro e até chique abrir a boca e soltar um sonoro @#&*$#!. Estamos cheios disso nos reality shows que todo mundo (nem todos, é claro) adora. (Arrgghhh!!) Resido no Pará e aqui é algo que parece já estar enraizado na língua do povo, desde o ancião até os pequeninos. Gosto muito de praticar esportes, principalmente futebol e vôlei e, acreditem, a cada 3 minutos ouço, no campo ou quadra, no mínimo um palavrão escabroso (salvo quando jogo com o pessoal da minha igreja, e ainda assim, quando é novo convertido...).

O fato é que o povão está cada vez mais longe de Deus e do conhecimento de Sua Palavra. Para se ter uma idéia de que o palavrão é nocivo aos olhos de Deus, eis aqui alguns textos bíblicos que ressaltam essa afirmação:

Não saia da vossa boca nenhuma palavra torpe, mas só a que for boa para promover a edificação, para que dê graça aos que a ouvem. Efésios 4:29

Mas agora, despojai-vos também de tudo: da ira, da cólera, da malícia, da maledicência, das palavras torpes da vossa boca. Colossenses 3:8

A vossa palavra seja sempre agradável, temperada com sal, para que saibais como vos convém responder a cada um. Colossenses 4:6

É claro que tem sempre alguns que se usam da Palavra para dizer que há excessão. Como por exemplo em: "Porque todos tropeçamos em muitas coisas. Se alguém não tropeça em palavra, o tal é perfeito..." Tiago 3:2

Fala sério! Não é porque somos falhos que ficaremos sempre caindo no mesmo erro. O homem tem que procurar se apartar das coisas do mundo, seus modelos e atitudes e não se embrenhar nelas porque é feito de carne e osso. Temos que ter a consciência que nossa boca é parte do corpo (claro!) e, por isso mesmo, considerado como parte do templo do Espírito Santo.

Deixemos pois os palavrões e usemos nossa boca para glorificar a Deus, abençoar, dar brados de vitória, declarar bênção sobre nossos irmãos, amigos, familiares.

terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

Resenha do livro ILUSÃO no blog Eclética

A amiga Priscila Reis, do blog Eclética leu o livro ILUSÃO e fez uma resenha do mesmo.
Quem quiser conferir, acesse esse link: http://ecleticateen.blogspot.com/2011/02/recomendo-ilusao.html

Abraço a todos.

segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

CONTO: Quando Acaba a Inocência - Naasom A. Sousa

Nesse sábado, dia 22/01/2011, foi o resultado do concurso literário 2010 aqui da cidade onde resido, Paragominas-PA, e ganhei o 2º lugar (categoria conto), com o texto AS REGRAS DO AMOR. No ano anterior, 2009, fiquei em 3º lugar; em 2007 fiquei com a 1ª colocação.
Coloco aqui o conto que ganhou o 3º lugar em 2009.
Espero que apreciem.

 

 

QUANDO ACABA A INOCÊNCIA

 

Eu olhava em seus olhos esbugalhados de terror e temor. Ele estava com os braços estendidos para cima, demonstrando uma total rendição ao gesto que eu fazia. Não conseguia mais olhar para ele sem que aquele arrepio percorresse gélido o meu corpo seminu. Estávamos numa casa de prostituição onde eu trabalhava. Ele estava sentado à beira da cama desarrumada e de cheiro desagradável; eu estava em pé, retesada, com os olhos desaguando em lágrimas. Enfim ele estava diante de mim, indefeso, como assim eu já estivera diante dele muitas vezes. Jurei a mim mesma que quando eu o reencontrasse seria o fim daquela vida de encontros frívolos e o fim da existência dele.

Por fim, fechei os olhos, apertando-os o máximo que eu podia. Esperava apenas o estampido. A arma tremia em minha mão magra e vacilante. Eu tinha vinte e seis anos, estava a ponto de apertar o gatinho... e matar o meu próprio pai.

Naquele momento, em que eu podia sentir o gatilho escorregando, prestes a acionar o mecanismo que expulsaria a bala da arma e concretizaria meu primeiro homicídio, ouvi a voz entrecortada dele a balbuciar palavras quase inaudíveis: "Não faça isso… Francisca… sou seu pai… eu… eu te amo…"

Não me dei conta que deixei afrouxar o dedo e o tiro não saiu naquele instante. Apenas pensei em antes olhar para ele mais uma vez. Tive vontade de sorrir com desdém, mas me contive. Ele já não me conhecia. Foi por isso que tentara comprar uma hora do meu tempo e do meu corpo. Não sabia o que passei, não sabia o que vivi nem o nome que adotei após a sua partida. Não me chamava mais Francisca; todos me conheciam agora por Conceição, a alegre.

Numa fração de segundo foi como se eu retornasse à minha infância e logo me vi indo para a escola com cinco anos de idade. Era meu primeiro dia de aula. Minha mãe me levava pela mão e eu, uma vez ou outra, olhava para cima a fim de fitá-la e sorrir em sua direção para manifestar-lhe minha alegria. Lembrei que, diferente das demais crianças que foram deixadas na sala de aula naquela manhã, eu não chorei. Mamãe sempre me elogiava por isso e se gabava para outras mães perto de nossa casa, vizinhas de fofoca. Eu era feliz.

Eu estava brava. Ainda o tinha sob a mira da arma. Podia ouvir alguns sussurros vindo dos quartos vizinhos. Aquele que um dia fora meu pai continuava imóvel, sabendo que se erguesse a voz morreria de imediato. Limpou a garganta e soprou: "Não faça isso… filha…"

"Não faça isso… filha…", foi o que ele dissera quando aos cinco anos ela levara o caderno para a mesa em que estava servido o almoço. "Nessa casa a hora do almoço é sagrada".

Senti mais uma enxurrada descer de meus olhos. As emoções se manifestando como algo que tinha sido escondido há muito tempo e agora estava eclodindo de forma inesperada.

"Você não sabe o significado de sagrado!" Minha boca e queixo estavam rígidos. Era difícil falar.

"Do que você tá falando?" ele gaguejou acuado.

Fora com essas palavras que ele tentara fazer de escusado minha negação, quando entrara em meu quarto pela madrugada. Eu tinha sete anos. Com movimentos suaves suas mãos tocaram meu corpo ainda pequeno e inexplorado. Assustada eu me retraí. Disse-lhe que aquilo não era bom. Foi então que aquela frase surgiu e grudou em minha cabeça. "Do que você tá falando?". Sem palavras diante do medo que senti ouvi sua próxima sentença: "Vou te mostrar como isso é bom. Você vai gostar".

Eu resisti, mas ele era forte. Ele era meu pai e eu o amava. Amava. Todo sentimento bom que sentia por ele deixou de existir desde aquela noite sombria e terrivelmente dolorosa. Surgiu então o medo, a revolta, o asco. Entretanto, infelizmente, tudo isso não o impediu de visitar minha cama alguns dias por mês pelos anos que se seguiram. Eu dizia que iria contar para mamãe o que ele fazia comigo e, em contrapartida, as ameaças que eu ouvia por parte dele eram capitais. O que mais saia de seus lábios era: "Se fizer isso vou te matar!"

"Se fizer isso vou te matar!" disse eu ainda apontando-lhe a arma. Foi minha reação quando ele olhou para a porta, talvez pensando se eu teria pontaria e agilidade de acertá-lo antes de abri-la e correr para a rua. Eu podia ouvir sua respiração pesada e sentir seu cheiro repugnante. Ainda era o mesmo de dezenove anos atrás.

Há dezenove anos eu tinha conhecido quem realmente era meu pai: um abusador de crianças inocentes; um pedófilo inescrupuloso que havia violado a própria filha. Quando completei onze anos não aguentei mais as humilhações e as ameaças. Contei para minha mãe. Que infelicidade. Ao invés de ficar do meu lado, alcançou uma corda e me açoitou como se faz com um animal de rua. Meu corpo magro ficara todo marcado. Onde estava a mãe que me levara para a escola de mão dada? E a mãe orgulhosa? Minha cabeça era um imenso redemoinho. Cinco anos sendo abusada e minha mãe nem ao menos se dirigiu ao meu pai com tom de suspeita. À noite ela revelou a ele o que eu dissera. Ouvi toda a conversa detrás da porta, tremendo. Eu iria ser morta, afinal. Não dei chance a ele. Fugi naquela mesma noite pela janela do meu quarto, somente com algumas roupas, e nunca mais voltei para casa.

Corri até ficar exausta. Planejei ir para algum lugar bem longe de onde meus pais moravam. Estava decidida. Continuei, pelo resto da noite, andando pela estrada que me levaria à outra cidade. Fraca pela surra e pela fome que sentia, desmaiei no caminho.

Acordei assustada e atordoada. Notei que estava num quarto sem muito conforto. Logo uma mulher robusta entrou e contou-me que me achara desmaiada e me trouxera para sua casa. Disse que seu nome era Matilda. Por sorte ela morava na cidade vizinha. Perguntou-me o que acontecera comigo e, desesperada, expus-lhe os cinco anos de abusos que sofri, o episódio com minha mãe e, por fim, minha fuga. Ela disse que me ajudaria com o que eu precisasse. Disse-lhe que apenas me ajudasse a ir para o mais longe possível da minha cidade. Por um momento ficou pensativa e então deu de ombros. Falou que era uma mulher solitária e que não conhecia muitas pessoas longe dali. Porém sabia de alguém que poderia ficar comigo por algum tempo, mas talvez eu não gostasse. Disse-lhe que qualquer canto era melhor do que estar no mesmo lugar que meu pai. Ela revelou então que a pessoa que poderia me acolher numa cidade mais distante era dona de um prostíbulo. Não pensei muito e aceitei. No dia seguinte partimos para encontrar a tal mulher.

Bela era o nome dela. Ao me ver e saber da minha história se compadeceu e disse que me ajudaria. Por um mês Bela me tratou bem e me fez conhecer todas as garotas que trabalhavam para ela assim como me contava os fatos que ocorriam debaixo do teto que dali em diante eu passaria a morar. Não me sentia bem com o que acontecia ali, mas não revelei isso a ninguém. Até que um dia Bela me pediu que fizesse um grande favor a ela: entrasse num dos quartos e fizesse companhia a um homem especial que…

Não esperei ela terminar o pedido. Sai correndo para longe daquela casa. Fiquei nas ruas como uma mendiga. Passei fome, fiquei suja, não tive lugar para ficar. Não tive escolha. Voltei para a casa da Bela. Comecei a me prostituir com treze anos. Em minha mente uma sentença passou a ser construída: "Era tudo culpa do meu pai".

Naquele lugar me acostumei a fazer coisas que não gostava em troca de comida e um lugar para ficar. Cada vez que ficava com um homem lembrava "dele". Aquilo era o inferno e eu era uma alma que gemia e por dentro clamava por uma luz no fim do túnel. O ódio por meu pai levou-me a fazer uma promessa a mim mesma: se alguma vez o encontrasse em minha frente o mataria.

Agora estava pronta para matá-lo. Ouvi risadinhas vindas do quarto ao lado. Ainda com meu pai sob minha mira, meu coração se contraiu e percebi que isso aconteceu quando pensei em Marcelo e nas risadas que dávamos quando estávamos juntos. Ele e eu nos conhecemos há um ano atrás, numa certa noite em que alguns amigos dele lhe prepararam uma despedida de solteiro. Contrataram meus serviços para aquela noite. Ele era bonito, 36 anos, corpo franzino e apesar da idade parecia inexperiente. Fiz o que tinha que fazer e fui embora.

Uma semana depois Marcelo estava me visitando na casa da Bela. Disse-me que o noivado tinha acabado, que perdera a vontade de casar. Perguntei a mim mesma se a noiva tinha descoberto algo sobre a despedida de solteiro. Marcelo passou a ser meu cliente. Cada vez que nos encontrávamos passava a conhecê-lo mais e vice-versa. Os momentos com ele passaram a ser bons e então, estranhamente, passei a sentir sua falta quando custava a vir me ver. Havia algo diferente na forma como me tratava e eu gostava daquilo. Até que um dia Marcelo me perguntou como fui parar naquele lugar. Tive a sensação que não podia esconder nada dele e contei-lhe minha história incluindo o grande ódio por meu pai. Ele achou tudo muito triste e indagou o porquê daquele nome e apelido: Conceição, a alegre. Disse-lhe que escolhi para esconder meu passado e a tristeza que carregava em meu coração. Foi então que algo maravilhoso aconteceu: ele me abraçou tão forte que não me contive e chorei em seus braços. Ele perguntou então se eu gostaria de deixar a vida de prostituta. Com um suspiro, como que de cansaço, deixei escapar um "sim". Olhei para ele e vi em seus olhos um brilho terno carregado de decisão.

"Escute bem", disse ele se chegando para mais perto de mim. "Estou de viagem marcada para amanhã. Irei resolver alguns negócios numa fazenda que tenho e devo ficar duas semanas fora. Quando voltar, quero que você esteja em minha casa me esperando. Resolva tudo por aqui, se despeça de suas amigas e dê adeus a este lugar. Você não será mais uma mulher da vida".

Fiquei a fitá-lo por um momento, incrédula, esperando que sorrisse e dissesse: "Brincadeira!!!". Mas ele permaneceu com a mesma expressão séria a olhar-me através de muito além de meus olhos. Eu perdi a voz e ele me abraçou novamente. Por fim deu-me o endereço e a cópia da chave de sua casa. Devo estar sonhando, disse-lhe. Isso não é real. Ele sorriu e apenas repetiu: "Duas semanas. Esteja lá quando eu voltar".

"Era pra mim tá lá agora esperando ele. Mas você tinha que aparecer, não é?" Eu cuspia enquanto jogava sobre ele meu protesto e indignação. "Tirou minha inocência no passado e agora veio levar o sonho de um futuro. Quando apareceu essa chance pra mim, você tinha que vir e estragar tudo!" Ele parecia confuso a fitar-me. De fato, não sabia do que eu falava. Mas agora ele estava ali. Já que tinha aparecido cabia a mim cumprir a promessa que fizera a mim mesma: tirar-lhe a vida.

As meninas que trabalhavam na casa da Bela perguntaram se eu estava brincando, pois nunca alguém foi ali para tirar alguma garota de programa daquela vida antes. "Você é uma felizarda, garota!" gargalhou Bela. Todas ficaram, enfim, felizes por mim e me deram um abraço coletivo. No dia seguinte, quando fiz minha mala, guardando nela apenas as roupas que eu mais gostava, fui me despedir das meninas no salão. O lugar estava animado e havia muitos homens ali. Cheiro de bebida e cigarro enchia o lugar. Olhei para todos os presentes como uma última fotografia que iria ficar revelada e gravada em minha mente, mostrando-me onde o ato de meu pai tinha me levado. Sim, tudo havia começado com ele.

Subitamente minha atenção foi tomada por um homem de meia-idade que adentrou o recinto sorrindo juntamente com alguns amigos. Quase que instantaneamente meu corpo todo estremeceu e minhas pernas perderam o equilíbrio e caí desfalecendo. Acordei na minha cama com Bela me olhando com ar de preocupação. "É ele! É ele!" Eu gritei já chorando. "É o homem que me violentou. É o meu pai!" Bela pediu para eu ficasse calma e lhe contasse o que tinha acontecido. Depois e me acalmar, revelei-lhe a identidade de meu pai e pedi-lhe para falar à garota que ficasse com ele naquela noite para sondar tudo o que pudesse sobre ele. Sem muito questionar Bela fez o que pedi.

Meu pai era da área da construção civil e estava na cidade contratado por uma empreiteira que estava à frente de uma grande obra financiada pela prefeitura. Fiquei sabendo ainda que minha mãe tinha falecido de ataque cardíaco e que eu tinha dois irmãos que não eram da minha mãe, além de mais coisas. Porém não descobri isso tudo por informações da garota que ficou com ele na noite em que desmaiei. Ela descobriu apenas onde ele trabalhava e eu, meio que dando uma de investigadora, fui à obra e fiz indagações às pessoas que com ele trabalhava sem, é claro, que ele soubesse.

Até que um dia, ainda atrás de mais informações, ele mesmo me abordou e quis saber o porquê de tantas perguntas a seu respeito. Notei que não me reconheceu. Desconversei, como só uma mulher vivida sabe fazer, e disse-lhe que trabalhava na casa da Bela e que o tinha visto lá. Menti ainda dizendo que o tinha achado muito atraente e gostaria de encontrá-lo à noite. Ele ficou meio desconfiado, mas isso foi até eu lhe falar que eu lhe daria um bom desconto. Sairia quase de graça. Ele sorriu quase que imediatamente. Eu também. Era dessa forma que ele iria morrer, pensei.

À noite, um dos primeiros rostos que apareceram no salão foi o dele. Bela foi me chamar no meu quarto e me perguntou o que eu ainda estava fazendo naquele lugar ao invés de estar na casa de Marcelo à espera dele. Como tivesse recebido um choque lembrei que duas semanas já haviam se passado e ele estaria chegando a qualquer momento. "Vou fazer esse último serviço e depois eu vou." Bela deu de ombros como que dizendo: "você é quem sabe".

Trouxeram meu pai ao meu quarto. O sorriso dele me dava náuseas. Fiz ele sentar na cama e tirei-lhe a camisa em silêncio. Podia ouvir sua respiração ofegante e, vendo-o ali comigo naquele quarto, fez com que todas as lembranças dolorosas ressurgissem ainda mais nítidas, latentes, dolorosas. Afastei-me apenas o suficiente para alcançar, debaixo do travesseiro, a arma que tinha adquirido logo após nosso encontro na obra. Com um salto me pus à frente dele, de prontidão, preparada para atirar.

"O que é isso, mulher! Tá lôca?" Ele se assustou e logo pôs as mãos para cima.

"Não me reconhece… pai?" Foi como se ligassem um interruptor na mente dele. Seus olhos arregalaram e então se lembrou de mim. "Vou matar você. Não podia ter feito aquilo comigo... eu era uma criança! Nenhuma criança merece passar por aquilo... Seu monstro!"

Enfim, agora ele estava ciente que iria morrer. Eu iria matá-lo por tudo o que fizera comigo. E quem sabe não havia feito com outras crianças? Seria por isso que minha mãe teria morrido do coração? Teria ela, de fato, descoberto as coisas perniciosas que ele fazia?

"Seu desgraçado!" Gritei e firmei meus pés para atirar. Olhei bem dentro dos olhos dele. Era o fim.

Crank! Alguém chutou a porta e ela se abriu violentamente. Era Marcelo. Ele tinha chegado de viagem e não tinha me encontrado em sua casa. Certamente veio saber dos meus próprios lábios o que houve para eu mudar de idéia. Porém em seus olhos vi o espanto por me ver apontando uma arma para um estranho.

Eu esbravejei:

"Esse aí é o canalha do meu pai! Que me estuprou, ameaçou me matar, fez eu fugir de casa com medo dele, me fez passar fome, me prostituir... É tudo culpa dele! Por isso vou matar ele! Ele merece morrer!"

Várias pessoas já estavam ali na porta, nervosas, de olhos fitos em nós. Mesmo assustado, Marcelo se esforçou para falar brandamente:

"Talvez ele mereça, Conceição... mas se for por suas mãos a chance de você ser feliz vai acabar".

Eu estava trêmula e ainda com a raiva pulsando em minhas têmporas. Como Marcelo poderia ser tão bom? Refleti que aquela chance de que falava era sobre nós dois. Talvez eu tivesse que agarrá-la com unhas e dentes e nunca mais soltar.

"Não faça isso. Venha comigo". Ele sussurrou com mansidão. "Se quer matá-lo, faça isso no seu coração. Ele acabou com sua inocência; não deixe que acabe com a sua vida também".

Fitei meu pai por mais alguns segundos em então baixei o revólver. Minhas lágrimas deram lugar a soluços altos e incontrolados. Eu precisava me libertar.

Marcelo chegou bem próximo ao meu pai e falou para ele: "Suma e nunca mais volte a colocar os pés nessa cidade de novo".

Foi a última vez que vi meu pai na vida. Marcelo levou-me para sua casa e cuidou das feridas que havia em minha alma. Foi um doloroso processo, mas conseguimos superar.

Hoje constituímos família e passamos a viver para nossas duas filhas, que hoje estão com oito e seis anos. Lindas e inocentes... como um dia já fui.

Inocência. Quem dera não a perdêssemos tão cedo.


Naasom A. Sousa
Email/MSN(Messenger): letrassantas@hotmail.com
Toda Glória, honra e louvor a Jesus, o Rei dos reis!

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

PRECONCEITUOSOS, NÓS?





Muito tenho ouvido sobre PRECONCEITO ultimamente. Aqui mesmo no blog já li que um filme é preconceituoso com os ateus! Mas o que de fato vem a ser o tal preconceito?
Segundo o dicionário Aurélio:

PRECONCEITO
[De pre- + conceito.]
Substantivo masculino.

1.Conceito ou opinião formados antecipadamente, sem maior ponderação ou conhecimento dos fatos; idéia preconcebida.
2.Julgamento ou opinião formada sem se levar em conta o fato que os conteste; prejuízo.
3.P. ext. Superstição, crendice; prejuízo.
4.P. ext. Suspeita, intolerância, ódio irracional ou aversão a outras raças, credos, religiões, etc.:


Se estou enganado sou preconceituoso quando falo algo desagradável de alguém ou alguma coisa sem ponderar (examinar com atenção e minúcia) e conhecer os fatos que sustentem aquilo que falo.

Saindo da explicação para o que realmente quero dizer nessa postagem é o fato que quando o cristão manifesta sua opinião contra o aborto, homossexualismo, o sexo livre, a reverência a santos, consultas a espíritos e outros assuntos, opiniões essas que têm respaudo bíblico, somos tachados de "preconceituosos". Entretanto desconhecem que temos uma visão panorâmica dos fatos, tanto secular quanto bíblica. Temos o nosso ponto de vista, que é diferente e que não são carregadas de superstições, crendices, intolerância ou com ódio irracional. Bradamos que não compactuamos com o pecado, mas não odiamos o pecador. Isso nos diferencia do termo "preconceituosos". Sabemos dos fatos, pois saímos do pecado. Já tivemos contato com ele e o rejeitamos agora.

Mas por que nos taxam tanto disso? Talvez a pergunta correta não seja essa e sim "Por que o preconceito é tão grande para com os cristãos?"

A verdade é que há uma máquina ideológica trabalhando para minar a força do cristianismo. Uma prova disso é o que foi visto ontem (03/11/2009) no Jornal do SBT (deve ter passado também em outros jornais, com certeza). A Parada Gay foi mostrada com pompa e requinte, com ênfase como digna das maiores do mundo, com a participação de autoridades.

Na mesma edição mostrou a Marcha para Jesus, com quase 2 milhões de pessoas. O que foi comentado: "estavam presentes na marcha os bispos da Renascer [...] eles foram presos [...]"

PODE??!!

As entrelinhas:
1- A Parada gay é maravilhosa!
2- A Marcha para Jesus é grande, mas tem bandido lá!

Então, se existe realmente o tal preconceito (sei que existe) está muito mais para com os cristãos do que para outros, pois a mídia está tratando de sanar a injustiça contra todos os demais (faz bem), mas enquanto isso jogam duro para que aqueles que não conhecem o que realmente é ser cristão (certamente alguém que não quer queimar todos os não-cristãos na fogueira da inquisição) a ter aversão ao evangelho.

É nessa hora é nos faz falta um espaço maior na mídia para contrapor essas idéias falsas contra a igreja de Cristo. Infelizmente, o que era pra ser uma TV dos evangélicos, a Record, (pois foi comprada com o dinheiro dos fiéis) não cumpre o seu papel, nem de longe faz isso.

O que nos resta então é torcer para o Pr. Silas Malafaia falar algo nos programas dele. Mas mesmo assim, ainda há aqueles "de casa" que o criticam.

Naasom A. Sousa
http://letrassantas.blogspot.com

segunda-feira, 26 de maio de 2008

E-BOOK: Ilusão - Naasom A. Sousa (COMPLETO!)

ILUSÃO é o mais recente trabalho de Naasom A. Sousa - o autor dos livros Transformação (partes 1, 2 e 3) e Do Deserto ao Oásis - uma ficção evangélica ao estilo Frank E. Peretti, que mistura ação, mistério e espiritualidade. 214 páginas que irão prendê-lo à leitura do início ao fim.

Sinopse:

Tainá Braga é uma simples estudante da universidade Belinne, que realiza o sonho de cursar comunicação. Após o pedido do professor para que a classe conseguisse um estágio em alguma empresa para avaliação no curso, Tainá se torna locutora da rádio Belinne que se situa no campus da universidade e tem transmissão para toda a cidade.

Após começar os trabalhos na rádio, Tainá começa a receber estranhos telefonemas, que parecem se coincidir com o desaparecimento — um a um — de seus amigos do campus. Tainá então conhece Felipe Nascimento, que comanda uma programação evangélica antes do seu horário, e começam uma intensa e interessante amizade.

Um investigador é contratado pela diretoria da universidade ao mesmo tempo em que os telefonemas se tornam ameaçadores e Tainá... [Leia mais]

Para fazer o download de ILUSÃO visite o blog [ FICÇÃO EVANGÉLICA ].

quarta-feira, 19 de março de 2008

E-BOOK: Do Deserto ao Oásis

Do Deserto ao Oásis é um conto que foi inspirado nas tantas dificuldades e tribulações que enfrentamos no dia-a-dia e que muitas vezes pensamos que vamos perecer. Porém, por mais que pensemos que estamos desamparados pelo Criador, Ele sempre tem um jeito de provar-nos o contrário.
Para baixar o e-book [CLIQUE AQUI].

terça-feira, 23 de outubro de 2007

Conto - AQUELES BRAÇOS FORTES*.

* CONTO VENCEDOR DO CONCURSO LITERÁRIO DA FIC DE PARAGOMINAS - 2007


Ele balançava preguiçosamente acomodado em uma rede na varanda ventilada de sua confortável casa. Era o que mais gostava de fazer agora: apenas sentir o vento sacudir-lhe delicadamente os cabelos levemente grisalhos enquanto pensava na vida, sorria junto à felicidade e lembrava-se de sua infância.

Foi quando mais uma visão de anos passados povoou-lhe a mente e arremessou-o à época em que o pai os deixou, saindo de casa para viver com uma ninfeta cor-de-jambo. Momentos de angústia. Dor. Insegurança. Desestruturação.

Restaram então apenas a mãe — uma mulher baixinha, perfeita dona de casa, com expressões de serenidade estampadas no rosto redondo —, duas irmãs e ele, que se via com quatorze anos. A devotada mãe, para não ouvir os estômagos dos filhos gemerem de fome, saiu para trabalhar fora de casa. Arranjou um emprego penoso no mercado, onde tinha que carregar caixas e mais caixas, sacos pesados ao extremo, pesos e mais pesos. Não demorou muito para que ele começasse a notar algumas mudanças nela. Os braços dela passaram a tomar formas mais rijas, pareciam engrossar, tornarem-se fortes. Foi dali em diante que um dos sete pecados capitais se apossou dele. Não pode evitar a inveja dos braços forte de sua mãe.

Aos olhos dele, ela parecia tornar-se mais resistente a cada dia. Caixas mais pesadas eram suportadas e levadas de um lugar a outro com menos esforço. Com o tempo a mãe até conseguia levar duas caixas num braço e sustentar as duas filhas no outro. Aquilo parecia ilusão, mas seus olhos de fato podiam contemplar os músculos desenvolvidos dela em ação. E a inveja aumentava.

Na escola ele ouvia alguns alunos tecerem comentários sobre sua mãe. “Ela é mais forte que um touro”, disse certa vez uma aluna metida. “Um touro? Você tá brincando? Ela deve levantar um carro acima da cabeça sem fazer muita força!” retrucou alguém perto. Ele ouvia e ficava consternado. Quando ele iria ser forte como a mãe? Ele achava que nunca, já que agora ela trabalhava dia e noite quase que incessantemente.

Quando arranjou uma namoradinha, de nome Aninha, levou-a em casa para conhecer a mãe robusta num dos raros momentos de folga desta. Foi um desastre. Aninha comparou os braços de palito dele com os da mãe, que mais pareciam duas toras de madeira. A namoradinha ficou impressionada, assim como todos os que notavam aqueles bíceps e tríceps avantajados e bem definidos. A inveja aumentava.

Uma idéia veio-lhe à mente. Entrou numa academia de um amigo que, ao ver muitas lágrimas e insistências, dispensou dele as mensalidades, já que não podia pagar. Começou a malhar depois das aulas. Puxava as irmãs pelas mãos e as deixava sentadas sobre uma pequena pilha de pesos enquanto ele se encharcava de suor exercitando os músculos do braço.

Alguns meses se passaram. Os braços dele dobraram de tamanho; os da mãe triplicaram. A inveja aumentava.

Houve um dia em que um rapaz briguento, que praticava halterofilismo na mesma academia e era conhecido pelo apelido de “Tijolo”, quis brigar com ele pelo simples fato de terem se esbarrado acidentalmente no estreito espaço entre um parelho de musculação e outro. Tijolo era enorme. Ele sabia que não sairia vencedor se viessem a lutar com aquele grandalhão. Chegou à conclusão que não queria lutar. Tijolo não quis esperar suas justificativas e desferiu-lhe um soco no meio do nariz. Ele caiu sentado, zonzo, quase que desacordado. Um gosto de sangue surgiu na boca. Levou a mão ao nariz e descobriu que de lá escorria sangue. Com certeza o golpe quebrara seu nariz. Tijolo pareceu não se dar conta que com um simples golpe já se tornara o vencedor. Partiu para cima do mais fraco com ímpeto, mas parou instantaneamente. O garoto ensangüentado e acuado pode notar os braços fortes da mãe em volta da cintura de Tijolo, segurando-o. Sem o menor esforço ela levantou o rixento e levou-o para fora da academia. Lá fora, todos puderam ver a maior surra que Tijolo já levara na vida. A mãe ainda o fez prometer nunca mais cruzar o caminho do filho.

A partir daquele dia, todos, em vez de respeitá-lo, caçoaram dele. Não pode cuidar de si mesmo? Cadê a mamãezinha para te proteger? Olha só, já vai pra debaixo das barras da saia da mamãe! Tudo era motivo para o rebaixarem a nada. Seus olhos se enchiam de lágrimas. Seu coração se despedaçava. Aqueles braços fortes da mãe! Inveja para quê? Para quê ter braços iguais àqueles? Eles só trouxeram para ele sentimentos de inferioridade, derrota e humilhação.

Trancou-se no quarto, abespinhado. Chorou. Gritou. Não quis mais saber da mãe nem das irmãs. Comida já não ingeria há um bom tempo. Então seus braços passaram a afinar novamente. Deitou uma hora sobre a cama e adormeceu.

Sonhou com o pai voltando para casa, ajoelhando aos pés da mãe e pedindo perdão por tê-la trocado por outra mulher mais jovem. O que viu em seguida foi o pai sendo jogado a um quarteirão de distância da casa por aqueles braços poderosos e impetuosos.

Ele despertou gritando alto, sobressaltado. A porta foi imediatamente arrombada e a mãe, numa velocidade incrível, correu e se debruçou sobre ele, abraçando-o.

“Tudo bem, querido. Eu estou aqui para protegê-lo”, foi o que ela disse, com suavidade. Naquele exato momento ele percebeu que, apesar de tantos músculos, aqueles braços eram extraordinariamente aconchegantes ao seu redor. Deu-se conta que nunca sentira a força deles a surrarem-lhe o corpo. Mas agora sentia a intensidade daquele amor maternal a envolver-lhe calorosamente. Sentia-se tranqüilo, seguro, amado.

Não tinha mais inveja ou ódio daqueles braços fortes. Nada daquilo importava mais.

Ele voltou ao presente como que saindo de um transe.

Respirou fundo e sentiu novamente o vento refrescar-lhe o rosto. Sorriu gostoso. Olhou para o lado onde havia outra rede armada. Lá uma velhinha miúda de braços grossos dormia sossegada, despreocupada. Ele sorriu mais uma vez, admirando-a, concluindo que por mais fortes que os braços da mãe pudessem ter se tornado no passado, nunca puderam se igualar à força do amor que ela carregava dentro do seu pequeno coração.



* * * * * * *


Autor: Naasom A. Sousa

sexta-feira, 29 de junho de 2007

-->> Poesia: Nunca Mais

Por: Naasom A. Sousa

Paro, penso por um instante e chego à conclusão que não posso parar.
Parar para quê? Estagnar por quê?
Tenho que continuar caminhando sem olhar para trás.
Afinal, de onde eu saí não devo voltar mais.
Tenho que crescer, esse é o objetivo,
Tornar-me dia perfeito, brilhante, radiante.

Sozinho eu sei que nunca conseguirei.
Minhas forças são pequenas demais em mim mesmo.
Preciso de um apoio, de braços fortes, onipotentes.
Preciso de Deus. O Deus que criou tudo o todos.
Ele qualquer coisa pode sustentar;
Tudo pode erguer com suas mãos poderosas,
Imagine a um homem de pés vacilantes e pernas teimosas

Endireita meus caminhos, Senhor,
Endireita a minha vida inteira.
Ajuda-me a caminhar, para depois eu poder criar lindas asas e voar.
Nos altos céus, ao som da trombeta, eu quero te encontrar,
Em teus braços singelos quero me aconchegar
Ao teu lado ficar e ficar e ficar. Para sempre.
E nunca mais olhar para trás.